Área de Concentração: Temporalidades, saberes e identidades
O Programa de Pós-Graduação em História da UFOB surge como uma elaboração coletiva de docentes com trajetórias e temas de pesquisa diversificados. Acompanhamos o perfil atual da pesquisa histórica brasileira que, ao longo de décadas, vem se caracterizando pela contínua abertura a novos “problemas”, “abordagens” e “objetos”. Ainda assim, compartilhamos o entendimento de que os diferentes caminhos de pesquisa da História dialogam entre si em torno da ideia de temporalidades como conceito articulador central. É na variação temporal, afinal, que o conhecimento histórico se produz, articulando questões contemporâneas às presenças deixadas pelo passado. Espera-se que as pesquisas explorem como os distintos atores sociais se colocam ou são colocados como sujeitos ou não-sujeitos históricos. Em outras palavras, como se disputam ou se impõem certos papéis históricos a diferentes sujeitos de acordo com a construção de suas localizações temporais.
O papel da pesquisa histórica contemporânea não se restringe ao reconhecimento das relações sociais do passado, assumindo também o atravessamento de diferentes saberes tanto no conhecimento histórico quanto na constituição dos sujeitos históricos. O PPGH-UFOB propõe o reconhecimento do papel social de diferentes saberes tanto no passado, quanto no modo pelos quais diferentes olhares conferem novas perspectivas ao conhecimento histórico atual. Sem renunciar às especificidades teórico-metodológicas que caracterizam a área de História, avaliamos que o diálogo interdisciplinar enriquece e amplia as possibilidades de pesquisa. Além disso, tal como qualquer outra forma de conhecimento, a pesquisa histórica não se encerra como um fim em si mesma. Ela oferece com seus métodos um elemento a mais no diálogo com outros saberes que circulam socialmente, para além dos limites acadêmicos, enquanto simultaneamente os incorpora em sua compreensão social.
Entendendo a pesquisa histórica universitária como um saber específico acerca de questões sociais contemporâneas, o PPGH-UFOB considera as identidades o terceiro conceito-chave que caracteriza nosso trabalho. De um lado, são as preocupações acerca das identidades sociais na contemporaneidade que motivam a investigação sobre a construção social e a representação cultural de identidades diversas no passado. Por outro lado, também o conhecimento histórico participa desses processos de construção e representação de identidades, nos recortes e agrupamentos que estabelece no passado. Entendemos ser crucial para a pesquisa histórica a preocupação acerca das identidades sociais que são localizadas no passado, bem como aquelas para as quais a pesquisa se dirige na contemporaneidade. Temporalidades, saberes e identidades são, por esses motivos, os conceitos-chave que compreendemos interligar os trabalhos de pesquisa do PPGH-UFOB. Não como uma delimitação restritiva, mas como pontos de referência a partir dos quais as possibilidades de pesquisa se apoiam e se abrem. A história, como conhecimento, se constrói sempre em uma relação entre temporalidades diferenciadas, em que saberes diversos se somam e se confrontam na definição e redefinição de identidades, tanto no passado quanto no presente.
Esses conceitos permitem ainda o esclarecimento sobre o lugar social da pesquisa histórica do PPGH-UFOB. Independentemente do recorte espacial e temporal proposto por suas pesquisas, espera-se que o conhecimento delas derivado seja esclarecedor acerca dos processos sociais e fenômenos culturais contemporâneos. Na realidade do oeste baiano, tais processos e fenômenos são vivenciados com intensidade no contraste entre diferentes camadas de temporalidades, saberes e identidades que sobrepõem. Espera-se da história que seja capaz de fornecer algum grau de compreensão para uma sociedade atravessada por contrastes, onde comunidades tradicionais, com seus próprios tempos, saberes e identidades, coexistem com processos de modernização acompanhados de uma crescente diversificação cultural.
Linha de pesquisa 1 - Memória, patrimônio e cultura
Linha para as pesquisas que dialogam com esses três conceitos: memória, patrimônio e cultura. Primeiramente, pesquisas que privilegiem as relações entre a história e a memória, esta considerada aqui não apenas como permanência ou celebração do passado, mas como processos ativos de construção e desconstrução de identidades e pertencimentos diversos. Isso implica em reconhecer as relações multifacetadas entre memórias e cultura histórica, envolvendo representações do passado por parte de diferentes grupos sociais e suas manifestações culturais. Sob a ideia de patrimônio, agregamos pesquisas relacionadas aos diferentes patrimônios coletivos, sejam estes materiais ou imateriais, culturais, naturais ou oficiais – incluindo processos por meio dos quais elementos do passado passam a ser representados como patrimônio. O termo cultura ressalta o potencial desta linha para abrigar trabalhos sobre práticas culturais, suas construções como representações e sua circulação por meio de apropriações e hibridismos. A linha de pesquisa abrange estudos sobre a cultura histórica, a história e a cultura afro- brasileira e indígena, o acesso à informação, as representações do passado, o cotidiano, as práticas festivas, as linguagens, as especificidades de saberes, práticas e representações culturais. Entendemos as investigações acerca das práticas culturais e das disputas constitutivas da memória e do patrimônio pelo recorte temporal como um meio de conhecermos as dinâmicas entre saberes diversos pelas quais identidades sociais são construídas e reconstruídas.
Docentes: Anderson Dantas da Silva Brito; Alex Alvarez Silva; José Francisco dos Santos; Miranice Moreira da Silva; Napoliana Pereira Santana.
Linha de Pesquisa 2 - Sociedade, poder e espacialidades
Linha para as pesquisas que articulam os conceitos de sociedade, poder e espacialidades de modo a melhor abranger processos históricos de perfil estrutural, institucional e político em um amplo entendimento. Reconhecemos, aqui, a necessidade de lançar mão de metodologias analíticas e conceituais diversificadas que nos permitam investigar como as relações sociais são atravessadas por e simultaneamente constitutivas de relações de poder em diferentes níveis. A ideia de espacialidades nos possibilita estabelecer recortes investigativos acerca da construção de localidades e territórios como resultantes e atuantes de processos sociais e de poder. Essa articulação indica ainda os potenciais da pesquisa histórica ressaltados pelo entendimento da espacialidade como uma localização ou territorialização também social e política. A linha de pesquisa abrange projetos que pensam os processos socioeconômicos, relações de poder, ideologias, movimentos sociais e a produção social e política dos espaços. Acolhe estudos críticos dos processos de ocupação, colonização, uso da terra, formação de instituições políticas, eclesiásticas, educacionais, científicas e administrativas, e conflitos sociais, ambientais e fundiários, com ênfase na América Latina, especialmente no Brasil. A partir desses eixos os trabalhos da linha se volta, para a compreensão de processos cujas temporalidades revelam disputas em torno da construção e do impacto de saberes e identidades.
Docentes: Ediana Ferreira Mendes; Fabiane Machado B. da Fonseca; Flávio Dantas Martins; Rafael Sancho Carvalho da Silva; Pablo Antonio Iglesias Magalhães e Zózimo Antônio Passos Trabuco.