Conservação por conflito: uma história ambiental do Cerrado no vale do rio Preto, Bahia, Brasil
Cerrado; agronegócio; geraizeiros; conservação por conflito; justiça ambiental.
Esta dissertação analisa as transformações no uso da terra e na ordem territorial do Cerrado no Alto Rio Preto, em Formosa do Rio Preto (Bahia), área estratégica da fronteira agrícola do MATOPIBA. Investiga-se como políticas de Estado, programas de expansão agrícola e instrumentos de regulação ambiental e fundiária moldaram uma coexistência conflituosa entre grandes empreendimentos do agronegócio e comunidades geraizeiras em um vale historicamente ocupado por populações tradicionais. Com base em história ambiental, análise documental (legislação, relatórios técnicos, processos judiciais e administrativos) e trabalho de campo com entrevistas semiestruturadas, a pesquisa triangula as trajetórias do agronegócio e das comunidades locais, examinando as dimensões econômicas, sociopolíticas e ecológicas do conflito. A partir desse material, discute-se como o avanço da produção de commodities em larga escala, sobreposta a territórios de uso comum, reconfigurou interações entre humanos e não humanos, representações de natureza e práticas de conservação no Cerrado. O caso do Vale do rio Preto é interpretado como um exemplo emblemático de “conservação por conflito”, em que paisagens preservadas resultam menos de planejamento prévio e mais do atrito entre financeirização da terra, regulação ambiental e persistência de modos de vida tradicionais. Ao contrapor o modo de vida agroextrativista e pecuarista geraizeiro à agricultura industrial voltada à exportação, a dissertação evidencia como projetos de futuro em disputa para o Cerrado contribuem com suas implicações para a conservação e para a justiça ambiental e territorial no Oeste baiano.