O evento de extensão universitária intitulado Demarcando Telas tem como objetivo promover a visibilidade e o reconhecimento do cinema indígena e do cinema negro, através da exibição e discussão de filmes de ficção, documentários e outras linguagens audiovisuais produzidos por cineastas indígenas e de comunidades tradicionais. A ação extensionista consiste em atividade vinculada ao Programa de Educação Tutorial (PET) Encontro de Saberes na UFOB. Além disso, o evento contempla produções que abordam temas relativos aos direitos humanos e à luta pelo direito ao território ancestral. As exibições poderão ocorrer em territórios indígenas e em auditórios da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). A atividade visa proporcionar aos estudantes, à comunidade universitária e à comunidade externa a oportunidade de debater e aprofundar temáticas relacionadas à cultura indígena e à luta pela regularização fundiária dos territórios ancestrais, utilizando as produções audiovisuais como ferramenta de reflexão e aprendizado. A relevância da ação extensionista se encontra na promoção de um repertório cultural e político mais amplo, fortalecendo a compreensão e o respeito pelas questões dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, ao mesmo tempo que contribui para o fortalecimento da identidade étnica e das vozes dessas comunidades no cenário cinematográfico. A atividade tem o escopo de preparar os estudantes para a atuação profissional pautada pelos direitos humanos, pela cidadania e pela função social da educação superior. Ao utilizar uma abordagem interdisciplinar e decolonial, o evento busca fortalecer a relação entre universidade e sociedade por meio das ações de extensão e, a partir disso, criar um espaço de aprendizado a respeito da assessoria jurídica popular que fortaleça a autonomia dos povos indígenas e comunidades tradicionais, garantindo a defesa de direitos humanos e a valorização de saberes ancestrais.
Para o “Demarcando telas”, será utilizado como referência teórica o capítulo “Instituir Mitologias: audiovisual indígena, um cinema de ação” escrito pelo líder indígena Ailton Krenak, presente na obra “Cosmologias da imagem: cinema de realização indígena“. Neste capítulo, Krenak discorre sobre o papel do cinema na construção de narrativas e na disputa simbólica dentro da sociedade, como o cinema, historicamente, esteve restrito a elites brancas e como as novas tecnologias permitiram que outras vozes, incluindo indígenas e quilombolas, pudessem, através dessa ferramenta, contar suas próprias histórias, ele critica o monopólio da indústria cinematográfica ocidental, especialmente de Hollywood, que impôs uma visão hegemônica sobre a humanidade, destaca a importância de um "cinema de ação" comprometido com a luta social, diferenciando-o do entretenimento alienante.
Nesse sentido, intitularam minha fala de “demarcar a tela”. No cinema de ação, ele se situa, do ponto de vista conceitual, do ponto de vista político, em um lugar de luta, de reivindicação e de resistência que os povos originários daqui do continente e os nossos irmãos de matriz africana, que constituem seus territórios em quilombos, em comunidades rurais e urbanas, num país onde a diversidade cultural é negada, em que a pluralidade das narrativas continua sendo combatida. (KRENAK, 2021, p. 21).
Para Krenak, a tecnologia tornou o audiovisual mais acessível, permitindo que comunidades marginalizadas produzam suas próprias narrativas, rompendo com o modelo imposto pelo colonialismo, ele ainda menciona a experiência da Mostra Aldeia SP, Bienal do Cinema Indígena e a Mostra Internacional de Cinema Ameríndio, destacando como esses eventos ajudaram a expandir a presença do cinema indígena no Brasil e no exterior. Além disso, recorda o impacto de sua performance na CPI de 1987, quando pintou o rosto de preto como um ato político, e reflete sobre o poder da imagem como linguagem de resistência, ele ressalta que o cinema indígena não apenas denuncia injustiças, mas também afirma outras cosmologias e modos de vida, reafirmando o cinema como uma ferramenta política e cultural de demarcação e resistência, a obra, que contém o capítulo abordado até aqui, traz boas discussões sobre representatividade no audiovisual:
O pensamento indígena ocupa a linguagem cinematográfica, deslocando-a a seu modo; a linguagem cinematográfica é desafiada a aproximar-se de elementos culturais nunca antes por ela figurados. Quem tem o poder de acessar e construir a elaboração sensível do mundo? Essa é uma das perguntas que os cinemas indígenas desafiam por meio de filmes que surgem – e se insurgem – como afirmação de outras perspectivas, outros modos de existência e relação com os demais seres no cosmos. Para voltar a outra célebre expressão de Ailton Krenak, tal demarcação das telas signifca uma ocupação de territórios de construção de sentido pelos cineastas indígenas. Sentidos e sensibilidades que demarcam formas diferenciadas e diferenciantes em muitos dos filmes que realizam. (KRENAK, 2021, p.13).
Nas sessões do Demarcando Telas também serão exibidas obras audiovisuais com protagonismo de pessoas quilombolas e pertencentes a comunidades tradicionais com o intuito de promover o encontro de saberes e a contracolonização da universidade a partir do conceito de confluência no pensamento pluralista territorializado de Antonio Bispo dos Santos (2015, 91), para quem é necessário “transformar as divergências em diversidades” na ação política de defesa dos territórios tradicionais. Nesta ótica, a linguagem cinematográfica consegue representar a luta dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que clamam por justiça por meio de epistemologias de reconhecimento que abordam a força do cinema como devir e enfrentamento do discurso colonialista e racista de negação do outro a partir da reconstrução da imagem positiva dos povos indígenas e da população negra (PRUDENTE, 2015). Por esta razão, Luiz Celso Prudente elabora o conceito de cinema negro como um cinema étnico:
Cinema étnico que se dá na medida em que se qualifica enquanto cinema de reconstrução da imagem de afirmação positiva do afrodescendente e da sua cultura, compreendida na dinâmica existencial da africanidade” (PRUDENTE, 2015, p. 51).
O autor reforça a importância da desconstrução dos estereótipos impostos pela hegemonia da “imagem do euro-hetero-macho-autoritário” e a consequente reconstrução da imagem a partir de si e para si de acordo com a cosmovisão africana em diáspora, destacando a dimensão pedagógica do cinema negro no sentido de educar sobre a resistência contra o colonialismo e a luta por direitos, afinal o conflito de imagens é uma expressão da luta de classes (PRUDENTE, 2015, p. 48). Em perspectivas socioculturais e educacionais, Paulo Freire (2023) propõe uma educação libertadora cuja prática educativa seja pautada no diálogo. Essa educação busca a conscientização crítica daqueles que são habitualmente excluídos e colocados às margens das decisões políticas e dos direitos sociais.
A proposta que une cinema e educação jurídica universitária popular está fundamentada no princípio de acesso à justiça para grupos socialmente vulneráveis na região Oeste da Bahia, em especial, os povos indígenas e comunidades tradicionais, fomentando experiências de práticas pedagógicas interculturais e contracoloniais. A perspectiva de ampliação do acesso à justiça reconhece as limitações do enfoque tecnicista da jurisdição, abordando também as dimensões históricas, antropológicas e sociológicas dos direitos humanos, promovendo um sistema jurídico igualitário orientado pelos valores do Estado Democrático de Direito (CAMPILONGO, 1991). Nessa configuração, busca-se a atuação em casos de interesse coletivo, contribuindo para a organização popular das lutas sociais por direitos, diversificando o acesso à justiça a partir da autonomia das comunidades na defesa da cidadania de forma articulada com atividades de educação jurídica popular (CAMPILONGO, 1991).
As práticas pedagógicas estruturadas na interação entre cinema, educação e direitos humanos, que estão fundamentadas no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, despertam processos de subjetivação e sensibilização dos estudantes para a garantia dos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais (GUERREIRO, 2021). Além disso, o planejamento e a execução do evento se dá por meio da horizontalidade entre docentes e discentes, possibilitando aos estudantes a participação ativa na concepção do evento, escolha do tema, seleção dos filmes, definição dos debates e divulgação para a comunidade acadêmica e comunidade externa (GUERREIRO, 2021).
A partir da proposta “Demarcando Telas” serão realizadas oito sessões de cinema (uma por mês, durante oito meses), dividindo entre mostras de cinema indígena e de cinema negro, depois de fazer uma seleção criteriosa de audiovisuais relevantes assistidos, previamente, pelos integrantes do PET Encontro de Saberes na UFOB. Nas datas das exibições, serão feitas discussões vistas nos filmes assistidos naquele dia com convidados especiais e a participação do público no debate sobre o audiovisual. Os procedimentos metodológicos são: a) escolher as obras audiovisuais; b) assistir coletivamente na sala do PET Encontro de Saberes na UFOB; c) organizar a exibição com perguntas chaves, convidados, produção de pequenos textos e apresentações artísticas; d) divulgar nos canais de comunicação oficial da universidade; e) realizar as sessões de exibição dos filmes seguidas de debates; f) avaliar a realização do cine-debate. As sessões estão programadas de acordo com o seguinte cronograma:
Sessão 1
11/04/2025
Sessão 2
16/05/2025
Sessão 3
13/06/2025
Sessão 4
11/07/2025
Sessão 5
22/08/2025
Sessão 6
19/09/2025
Sessão 7
10/10/2025
Sessão 8
28/11/2025
O projeto é voltado, inicialmente, para os estudantes do grupo PET Encontro de Saberes na UFOB, bem como estudantes matriculados nos componentes curriculares Prática Jurídica Civil I, Prática Jurídica Civil II, Direito das Coisas e Política e Direito Indigenista. Em sentido amplo, as ações extensionistas buscam envolver todos os estudantes do curso de Direito, sobretudo aqueles que cursam componentes relacionados ao Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ), além dos estudantes de outros cursos de graduação da UFOB no sentido de fomentar uma atuação interdisciplinar. Estima-se a participação dos estudantes do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais (PPGCHS), assim como de outros programas de pós-graduação da UFOB. Ademais, o projeto visa a participação de docentes, técnicos administrativos em educação e toda a comunidade universitária do Centro das Humanidades, Centro Multidisciplinar de Barra e demais unidades acadêmicas da UFOB que também integram o público-alvo da proposta.
As ações de extensão serão feitas com e para as comunidades indígenas e tradicionais em Barreiras. Também fazem parte do público-alvo os profissionais do sistema de justiça, do executivo e do legislativo, incentivando o diálogo sobre direitos humanos. Igualmente, são públicos externos, as organizações não governamentais, movimentos sociais, estudantes, professores e gestores de escolas públicas, estudantes e professores de cursos de graduação e pós-graduação de outras instituições de ensino superior.
Não há fotos cadastradas para esta ação
SIGAA | Pró-Reitoria de Tecnologia da Informação e Comunicação - (77) 3614-3560 @ | Copyright © 2006-2026 - UFRN - sigaa.ufob.edu.br v4.17.0