A escrita acadêmica é um espaço político em constante disputa. Longe de se pretender universalista, neutra e objetiva, ela é atravessada por nossas inquietações, certezas, dúvidas, afetações, emoções, aspirações, ideologias, posicionamentos. Conceição Evaristo (2016) diz que “escrever é uma forma de sangrar”, porque o ato insubmisso da escrita é escavar, em nós, as dores e as delícias do mundo. E isso nos insere no jogo dos interesses e nas disputas acadêmicas.
Como professora de oficina de produção textual e pesquisadora no campo da literatura, da escrita afetiva e da produção do conhecimento científico contracolonial (Nego Bispo, 2023), que busca romper com o pacto narcísico cismasculino ocidental capitalista de supremacia branca no âmbito da produção científica, venho me perguntando até que ponto a escrita acadêmica hegemônica como a conhecemos, a partir dos moldes normativos – objetividade, neutralidade e universalidade – pode servir aos conhecimentos científicos produzidos por corporiedades e coletividades das periferias sul-globais, na construção de uma outra geopolítica do conhecimento, das dissidências sexuais e de gênero, das populações racializadas, das comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, imigrantes e fronteiriças, tendo em vista que nossa escrita está implicada em nossa produção do conhecimento. Grada Kilomba (2019), em seu livro Memórias da Plantação, colaborou com estas mesmas questões, afirmando que no mundo colonial a produção de conhecimento científico também é um espaço de reprodução colonial.
Por isso, acreditamos que não apenas o conhecimento produzido, mas, sobretudo, a sua forma – a escrita – deve ser também questionada em seus limites coloniais. É possível constatar que a produção de intelectuais negras brasileiras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Luíza Bairros, dentre outras, é implicada (Denise Ferreira da Silva, 2017), ou seja, escreve a partir de sua experiência (individual e coletiva) e, por isso, constrói saberes fundamentais para pensarmos criticamente o mundo no qual vivemos. Então, a escrita implicada na produção textual construída é uma recorrência justamente porque, ao migramos da condição de “objetos” para “sujeitas” da pesquisa, compreendemos que toda produção do conhecimento é local e posicionada politicamente. Sendo assim, a universalidade, a neutralidade e a objetividade é uma ficção do poder (Jota Mombaça, 2016).
Além disso, é justamente na produção textual implicada que se busca não um distanciamento entre a pessoa que escreve e o texto escrito, com a intenção vã de, assim, afastarmos as emoções e as afetações de nossa escrita, mas sim deixá-la desaguar no papel, de modo eticamente comprometido com a descolonização do pensamento e da nossa escrita como prática de liberdade.
Nesse contexto, a proposta desta oficina é oferecer instrumentos teórico-metodológicos e técnicos para a escrita acadêmica afetiva, ao assumirmos a nossa implicação na produção do conhecimento científico. Através desta oficina, espero contribuir com o fortalecimento da escrita de pessoas pesquisadoras negras (formadas ou em formação), da comunidade acadêmica da UFOB e sociedade civil interessada.
Esta oficina tem o compromisso teórico, metodológico, técnico e político de construir importantes bases para o labor do conhecimento científico de corporeidades que, até muito pouco tempo atrás, eram apenas “objetos” de pesquisa para a hegemonia branca masculina europeia. Fundamentada pelos paradigmas do Feminismo Negro e das Afrocuiridades, construí essa oficina para fortalecer os escritos de pesquisadoras/es e futuras/es pessoas pesquisadoras negras e das dissidências sexuais e de gênero, para que encontrem ferramentas teóricas e técnicas para grafar seus textos acadêmicos.
ENCONTROS E EMENTAS:
1) Nomear o gesto insubmisso da palavra
Ementa: Desafios da produção textual na Universidade na contemporaneidade; Colonialismo universitário: múltiplas facetas do cissexismo capitalista masculino de supremacia branca; Construindo caminhos de autodeterminação; Identidades em jogo na prática acadêmica; Os afetos na produção do conhecimento.
2) Construindo línguas ferinas: erguendo a palavra sobre nós
Ementa: Linguagem acadêmica; a escrita em jogo; o Feminismo Negro e a escrita de mulheres negras; driblando a cena cisnormativa da palavra; linguagem neutra, pajubá e o pretoguês; Corpo-palavra; Memória.
3) “Escrever é uma forma de sangrar”: desafios escreviventes
Ementa: nomeando a linguagem; a escrevivência como um gesto insubmisso de construir conhecimento científico; estilo e estilística negra e LGBTQIAPN+; Narrativas Poéticas negra sapatão.
4) Gingando com o texto: desaguando os afetos na produção textual acadêmica
Ementa: gêneros acadêmicos; o ensaio e a escrita ensaística; a escrita e os afetos.
Comunidade acadêmica
Sociedade Civil
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